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O ATLETISMO ENTROU NA MINHA VIDA
(Publicado em 09/06/2023)
Em 1975 em morava em Rio do Sul. Tinha 16 anos, 1,78m, 58 kg. Era magricelo, desengonçado e com um cabelo Black Power. Trabalhava na Sulbrasil (uma fábrica de mesas de bilhar) e estudava à noite no Roberto Machado.
Foi nesse ano que o atletismo surgiu na minha vida e se tornou a minha primeira grande paixão. Fui atleta de alto rendimento durante quase 10 anos (cheguei a participar de competições nacionais e estar entre os 10 melhores do Brasil na minha prova). Sou fã de atletismo até hoje. Tenho grandes amigos ex-atletas. Acompanho os campeonatos mundiais e os Jogos Olímpicos com grande prazer.
Hoje eu vou contar pra você como foram os meus primeiros meses no atletismo e sobre uma corrida que, definitivamente, me abriu o caminho para uma jornada inesquecível no esporte.

Em 1975 eu estudava na sétima série noturna do colégio Roberto Machado em Rio do Sul. Naquele tempo os alunos do noturno tinham aulas de Educação Física e o nosso professor era o Altino de Andrade.
As aulas começavam com um aquecimento: corridas e alguns exercícios de ginástica. O professor Altino tinha pela frente a tarefa de montar uma equipe para participar das Olimpíadas Estudantis de Rio do Sul e, por alguma razão achou que eu me daria bem nas corridas. Ele convidou alguns alunos para treinar com ele no estádio municipal nos sábados à tarde.
Nos primeiros treinos eu realmente me saí muito bem, especialmente nas corridas de longa distância que exigiam menos força e habilidades específicas e mais inteligência, conhecimento da prova e das minhas próprias limitações.
Eu não saía correndo feito um desesperado (como a maioria dos outros colegas). Eu sabia que teria pela frente mais 8 ou 10 voltas na pista, e então poupava minhas energias para completar a prova. Assim, logo ficou claro que eu faria parte da equipe de atletismo do colégio e que participaria das Olimpíadas Estudantis de Rio do Sul naquele ano.
Treinamos durante alguns meses. No dia (na hora) da prova estava chovendo muito forte mas a corrida foi realizada assim mesmo (era a última prova do dia): os 1500 metros.
A corrida foi vencida pelo José dos Santos (com 4min28s0) e eu fiquei em quarto lugar (com 5min06s0). Quase ganhei uma medalha.
Alguns dias depois minha mãe estava ouvindo rádio e disse que o meu nome tinha sido falado e que eu tinha sido convocado para fazer parte da equipe de atletismo de Rio do Sul. Eu fiquei meio incrédulo mas quando cheguei na aula, à noite, o professor Altino confirmou a boa notícia: de fato eu tinha sido convocado para fazer parte da equipe do atletismo do Município e começaria a treinar com os atletas "de verdade" já naquele sábado.
Fiquei muito feliz. Mal via a hora de me apresentar e treinar com os grandes. Os que já estavam disputando competições estaduais.
O treinador era o Aroldo Shünke e o seu auxiliar era o José dos Santos (que depois se tornou treinador oficialmente). Os dois gostaram de mim (somos grandes amigos até hoje). Foram com a minha cara. Gostaram do meu jeito e começaram a me dar uma certa atenção. Começaram a perceber que eu era disciplinado e dedicado e foram me dando mais e mais tarefas e exercícios cada vez mais pesados.
Uma das características desse meu primeiro período no atletismo e que de certa forma se manteve por alguns anos (infelizmente) era o fato de que eu tinha muito pouca resistência e muito pouca força. Eu ousaria dizer que o meu relativo sucesso naquele período se devia muito mais a capacidade de entender a corrida e dosar a minha energia pra não perder absolutamente nada e aí alcançar o máximo resultado, a máxima performance possível.
Já estávamos agora no ano de 1976. Aproximava-se a realização dos Jogos Estudantis Regionais. Eu estava sendo preparando para correr os 1500 metros. O grande favorito era o Charles Lima, atleta do Colégio Dom Bosco, treinado pelo icônico treinador Moratelli. Ele era um atleta revelação que havia competido nos Jogos Estudantis Brasileiros no ano anterior. Era um adversário praticamente imbatível.
José dos Santos no entanto achou que eu poderia competir forte e aí começou a me ensinar algumas técnicas de corrida, corrigindo alguns erros dos movimentos e ajudando a aproveitar melhor a minha (pouca) força e resistência.
Naquele tempo, normalmente os atletas do meu nível corriam os 1500 metros em uma determinada velocidade e davam uma arrancada apenas na reta final, nos últimos 100 metros.
Santos começou a me estimular a iniciar essa arrancada final não nos 100 metros, mas nos 200 metros. Ou seja na entrada da última curva.
Mas isso é um perigo, porque, se eu não soubesse exatamente o que estava fazendo havia o risco de chegar na entrada da reta já sem forças para completar a prova e nem disputar medalhas.
À medida em a competição ia se aproximando eu ia ficando cada vez mais animado e, alguns dias antes, descobrimos que a corrida seria realizada no intervalo do jogo entre Juventus e Hercílio Luz de Tubarão, que seria disputado no domingo.
Foi aí que eu descobri que eu tinha uma grande facilidade de lidar com a pressão porque apesar de muito novo e apesar de saber que eu seria um dos corredores fortes da corrida o fato de saber que o estádio estaria provavelmente cheio não afetou a minha disposição e não me deixou mais nervoso do que me deixaria para uma corrida realizada em condições normais, ou seja, com estádio vazio
Chegou o tal domingo. Começou o jogo do Juventus e o Santos mandou os atletas para o aquecimento. Havia além de mim outros 27 corredores. Todas as escolas da região estavam participando.
Um pouco antes do final do primeiro tempo entramos na pista e ficamos esperando o intervalo. Meu pai e meu irmão Edson estavam na arquibancada.
Terminado o primeiro tempo do jogo o árbitro da competição alinhou os 28 corredores na marca de partida. Eu estava vendo Charles ao meu lado e o Carlos Cunha (Lico) também. Além deles, outros atletas que eu já conhecia dos treinos.
Ouvimos o tiro da largada e o que veio depois era aquela sinfonia de passadas no saibro da pista e a respiração ofegante de todos os participantes. Eu sai forte, mas não na frente. Completei a primeira volta entre os 10 ou 12 primeiros, de olho no Charles e no Lico que corriam na frente. Não queria perder o contato com eles.
Seguindo as orientações do Santos, ao longo da segunda e da terceira volta eu fui avançando e ganhando as posições. Quando entramos na última volta estávamos, o Charles e eu já bem à frente dos demais e estava claro que a disputa seria apenas entre nós dois. A medalha já estava praticamente garantida.
Não deixei o Charles escapar e quando entramos nos últimos 200 metros acelerei o passo, o que foi uma grande surpresa para ele. Ele acelerou também e não me deixou escapar. Entramos emparelhados na reta final. A arquibancada veio abaixo, com gritos pra todos os lados. Alguns torcendo pra mim e muitos torcendo pelo Charles porque ele era muito conhecido na cidade.
Charles era um guerreiro. A corrida somente se decidiu nos últimos 10 metros. Eu cheguei um metro a frente dele, com a marca de 4min27s4 (ele fez 4min27s7). Lico chegou em terceiro, com 4min38s0.
Eu estava exausto, mas tomado de uma felicidade absolutamente indescritível. Devido à circustância de o estádio estar lotado, aquela corrida foi o assunto da cidade na semana inteira. Por onde eu passava as pessoas me abraçavam e me parabenizavam. Fui tratado como um campeão por alguns dias.
Charles e eu nos tornamos grandes amigos e estivemos juntos em muitas competições. Ao longo de 10 anos competimos muitas vezes na mesma prova. Ele ganhou de mim muito mais do que eu ganhei dele, mas o saldo foi muito positivo para os dois.
Naquele ano de 1976, em novembro, eu fui campeão da eliminatória estadual para os Jogos Estudantis Brasileiros e integrei a seleção de Santa Catarina nos JEBs de Porto Alegre, em dezembro.
Foi um ano de muitas alegrias. Mas o melhor ainda estava por vir.

PADILHA, Ênio. 2023
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