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DE TRUMP A SICUPIRA
(Publicado em 19/06/2023)
Em 1988 eu li a biografia de Donald Trump. Odiei. Achei o exemplo dele extremamente negativo. O tipo de empresário ganancioso e truculento que encarnava o perfil dos piores clientes que eu tinha, só que com mais dinheiro e poder.
Em 1989 um colega me recomendou (entusiasmado) a leitura do livro GANHAR, uma autobiografia do empresário francês Bernard Tapie, que, na época, era presidente da Adidas, marca alemã de material esportivo.
Li, mas não gostei. O que estava escrito no livro causava em mim um certo desconforto. As soluções e os caminhos apontados pelo autor como as melhores alternativas para conduzir os negócios (e a vida), ainda que surtissem efetivos resultados para os negócios do autor, me pareciam transitar perigosamente próximas do estelionato, da deslealdade, da ganância e da mesquinharia... Pra mim ele era um crápula que deveria estar preso e não publicando autobiografia.

Pois bem: alguns anos depois Bernard Tapie foi preso num rumoroso escândalo envolvendo manipulação de resultados em jogos de futebol. Descobriu-se, então, que ele era um sujeito de índole duvidosa, afeito a negócios escusos e que outras atividades da sua vida empresarial também eram passíveis de suspeição. Aquilo desencadeou outros processos e ele acabou falindo e arrastando consigo parte das empresas que dirigia e, certamente, milhares de leitores a quem ele influenciou com seu livro.
Donald Trump, como sabem todos, virou presidente dos Estados Unidos e líder do que existe de pior no pensamento político no mundo.
E não lhe faltam seguidores.
Por causa daqueles dois livros (entre outras coisas) eu me tornei resistente a adotar como líder ou exemplo os grandes empresários e empreendedores festejados pela mídia (e pelos gurus da autoajuda empresarial).
E, claro, não tive nenhum interesse em ler o festejadíssimo SONHO GRANDE, a história de "como Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira revolucionaram o capitalismo brasileiro e conquistaram o mundo", porque ainda não confiava que eles fossem isso tudo que diziam ser.
Hoje me dou conta de que economizei algumas horas da minha vida e não precisei ler o que provavelmente é uma versão edulcorada (pra dizer o mínimo) do sucesso empresarial deles. Muita gente leu o livro e adotou aquelas palavras como mantra.
Aprendi uma coisa na vida: empresários ricos e poderosos, salvo raras exceções, não são grandes exemplos de virtude a não ser que sejam reconhecidos pelo comportamento extra empresarial (é o caso a Luiza Trajano ou do Ricardo Semler).
Infelizmente muita gente acredita que a capacidade de ganhar dinheiro é uma medida de valor da pessoa. É claro que isto não é verdade, o que não significa que ganhar dinheiro transforma qualquer um em sujeito sem valor ou sem virtudes.
O fato é que pessoas com menos escrúpulos e mais disposição para pisar no pescoço da própria mãe acabam tendo mais facilidade para ganhar dinheiro. Isso é fato.
Ter dinheiro é garantir poder. E ter poder garante uma legião de puxa-sacos. E a essa legião de puxa-sacos acaba criando uma bolha que leva o ricaço a se achar exemplo de valor para a humanidade, o que o leva escrever livros, dar palestras e querer ensinar a todos os seus métodos. E (como já foi dito sobre o Trump) não lhes faltam seguidores.
E isso vale no mundo empresarial, no esporte e nas artes.
Sicupira e seus pares certamente se achavam acima do bem e do mal. Julgavam-se melhores do que qualquer brasileiro trabalhador (o VÍDEO com ele dizendo que o Brasil nunca será um país desenvolvido é um exemplo disso).
O escândalo (a fraude de 40 bilhões!) da Americanas certamente demonstra que ou eles eram muito incompetentes (pra não ver uma fraude desse tamanho sendo realizada debaixo dos seus narizes) ou, o que é mais provável, estavam vendo tudo, mas não queriam reduzir os seus próprios ganhos e fizeram vista grossa (pra dizer o mínimo).
Seja uma coisa ou outra, eu não creio que tenha alguma coisa que eu possa aprender com esses senhores, assim como nunca tive nada a aprender com Donald Trump ou Bernard Tapie.

PADILHA, Ênio. 2023
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