ALFABETIZAÇÃO EMOCIONAL

(Publicado em 14/07/2023)



A inteligência artificial já está entre nós há muitos anos. Mas nunca havia causado tanto alvoroço porque todas as suas atividades sempre miravam tarefas mecânicas ou puramente matemáticas.

Agora algumas manifestações de inteligência artificial apontaram suas armas para tarefas tradicionalmente aceitas como tarefas intelectuais. E aí o circo tá pegando fogo!





Imagem: divulgação do filme EU ROBÔ



Essa guerra declarada pela inteligência artificial, comandada pelo General ChatGPT deixa claro que a próxima fronteira da prestação de serviços de Engenharia é a alfabetização emocional.

Durante muitos anos a maioria dos engenheiros se orgulharam de “não ser de humanas”.

Dominar a ciência e as suas tecnologias era mais do que suficiente para construir uma carreira sólida. O engenheiro só precisava ser metódico, sistemático e ter uma inteligência lógica. Nada mais.

Mas acontece que isso é exatamente o que a inteligência artificial é: metódica, sistemática e provida de uma excepcional inteligência lógica. Só que muito mais rápida e muito mais barata do que um engenheiro humano.

A corrida agora é por um lugar ao sol da prestação de serviços diferenciados (ou seja, com demandas por atributos humanos).
E acredite. Tem mais espaço nesse lugar ao sol do que muita gente imagina.

Mas é preciso desenvolver e aprimorar habilidades que foram ignoradas ou negligenciadas pelos engenheiros por muitas décadas.

CREDIBILIDADE
Serviços são essencialmente intangíveis. Isso significa que a negociação e venda de um serviço é feita antes da sua produção. Ou seja, o potencial cliente precisa acreditar nas promessas feitas pelo fornecedor.

Como consequência, o prestador de serviços precisa investir no desenvolvimento e sustentação da sua credibilidade, que é a capacidade de transmitir aos outros uma certeza de que as suas promessas serão integralmente cumpridas e que a sua palavra tem valor real.

As máquinas, especialmente as de alta tecnologia, têm alta credibilidade. Não é fácil concorrer com elas. Então, o que nos resta é não apenas manter uma credibilidade alta, mas elevarmos o valor das promessas e garantias.


SABEDORIA
Uma coisa é o conhecimento, que pode ser adquirido, ou a experiência prática que pode ser obtida. Outra coisa é a sabedoria, que é única para cada pessoa.

A sabedoria é a maneira como a pessoa combina os seus conhecimentos e experiências no sentido de entender como as coisas funcionam e qual é a forma mais inteligente de enfrentar (ou evitar) cada situação.

Entender que nem tudo exige uma resposta, saber que um olhar, um tom de voz ou um sorriso tem um significado maior do que mil palavras é um exercício de sabedoria;

Combinar centenas de conhecimentos e experiências acumuladas para gerar insights poderosos que podem resolver problemas de décadas também é uma manifestação de sabedoria.


SEGURANÇA E CONFIANÇA
Muitos profissionais têm uma capacidade de, pelos seus atributos e reputação, entregar o sentimento de segurança e confiança que não podem ser superados por máquinas.

Veja que, por exemplo, os equipamentos eletrônicos existentes, hoje, já seriam capazes de decolar, voar e pousar um avião comercial. Mas quem estaria disposto a embarcar num avião operado sem a ação ou supervisão de um comandante com 3, 5 ou 10 mil horas de voo?
Nada supera a confiança que depositamos na figura do comandante (humano).

INTUIÇÃO
A intuição é uma característica essencialmente humana. Uma percepção extrassensorial que orienta (ou pode orientar) as escolhas dos indivíduos.

É preciso saber lidar com as próprias intuições. Reconhecê-las, saber quando são importantes.

Muitas vezes o que entendemos como intuição nada mais é do que o resultado da leitura inconsciente que fazemos da comunicação não verbal das outras pessoas.

CRIATIVIDADE
Uma pessoa muito inteligente acumula um grande repertório de soluções práticas para muitas situações e é, normalmente, muito valiosa.

Uma pessoa criativa, para além de ser inteligente, faz conexões intelectuais surpreendentes e pode encontrar caminhos novos, mais rápidos, mais baratos, mais confortáveis. Uma inteligência artificial está limitada ao próprio repertório, determinado por humanos.

A criatividade é uma manifestação humana que consiste em fazer alguma coisa que a pessoa nunca viu outra pessoa fazer antes. Isto, definitivamente, não é para qualquer um (muito menos para uma máquina).


EXPERIÊNCIA ÚNICA
Cada ser humano é único, e essa condição acaba se manifestando em todas as suas interações.

As pessoas gostam de serem tratadas com exclusividade. Gostam do produto customizado.

Ter a capacidade de atender e gerar uma experiência única para cada cliente é uma fortaleza importante na luta contra os efeitos da inteligência artificial.

STATUS
Sentir-se superior, diferenciado ou destacado é uma necessidade humana. Muitas escolhas que as pessoas fazem quando compram bens ou serviços têm a ver com a necessidade de mostrar aos outros uma determinada posição social, intelectual ou financeira.

Muitas pessoas querem poder se orgulhar das suas escolhas. Um prestador de serviços precisa se transformar em algo que cause nos seus clientes não apenas a satisfação de necessidades práticas mas também dessa necessidade psicológica que é o status elevado. A necessidade de se sentir orgulhoso das suas escolhas.


PRAZER, ALEGRIA
As relações comerciais na prestação de serviços profissionais envolvem muito mais do que o cumprimento de tarefas objetivas e soluções de problemas claramente estabelecidos.

A percepção geral que o cliente tem, depois que o serviço foi finalizado depende muito do sentimento de prazer, de alegria e de felicidade que aquela interação proporcionou. Essa percepção é o que vai ou não produzir a poderosa propaganda boca a boca.

CUMPLICIDADE
No filme EU ROBÔ, com o Will Smith, o robô (uma forma de inteligência artificial que, por alguma razão, alcançou sentimentos humanos, incluindo até questionamentos filosóficos) estabelece com o personagem humano, o detetive Del Spooner, uma relação de cumplicidade, que se manifesta na piscada que dá para ele num momento crucial da trama.

O prestador de serviços profissionais precisa buscar estabelecer essa cumplicidade com os seus clientes. Aquele olhar, aquele arquear de sobrancelhas, aquele sorriso só com os olhos e que diz “captei a sua ideia”, “já entendi que você não quer discutir isso aqui, na presença dessas outras pessoas”, “tamo junto, nessa!”

Qual é a forma de inteligência artificial capaz de uma comunicação desse nível?





PADILHA, Ênio. 2023



Comentário #1 — 14/07/2023 11:13

Jean Tosetto — Arquiteto — Paulínia

O ser humano gosta de estar com outro ser humano. Se este ser humano for caloroso e atencioso, melhor ainda.
Não por acaso, muita gente ainda preferi ir ao banco pagar suas contas pessoalmente com um atendente de caixa que conhecem há anos.
Robôs não visitam terrenos e não sabem como lidar com pedreiros, burocratas das prefeituras, vendedores de pisos que oferecem comissão por fora. Resumindo: arquitetos e engenheiros ainda serão necessários por muitos anos.

RÉPLICA DE ÊNIO PADILHA

Precisamente, Jean. Engenheiros e Arquitetos que vão além dos cálculos e burocracias terão vida longa no mercado.

Comentário #2 — 14/07/2023 11:44

Farlley — Músico — Brasília

Parabéns pelo artigo, Ênio.

Há mais humanos tirando o mercado de outros humanos do que as máquinas.

Se não existissem as máquinas, ainda assim haveria humano puxando o tapete de outros humanos!

Fato !

RÉPLICA DE ÊNIO PADILHA

Por enquanto ainda acredito que a Inteligência Artificial é o menor dos nossos problemas, meu querido amigo Farlley.

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