DIFÍCIL SER FLUXER SE VOCÊ NASCEU
NA DÉCADA DE 1950

(Publicado em 12/03/2020)





EU SOU DO TEMPO… quando alguém começa uma frase com essas palavras eu já fico na defensiva. Lá vem aquela lenga-lenga de que "no meu tempo era melhor; As pessoas faziam dessa ou daquela forma… os jovens de hoje em dia não sabem o que é dificuldade…" um monte de bobagens.

Mas, nesta semana eu li o excelente texto QUEM SÃO OS FLUXERS da Lígia Fascioni e comecei a refletir:

Eu sou completamente Fluxer, de acordo com os critérios do artigo. Mas tenho de reconhecer que muita gente da minha geração não é. Não consegue ser, simplesmente porque é muito mais difícil tornar-se Fluxer se a pessoa tem 40, 50 ou mais de 60 anos.

Essas pessoas são de um tempo (lá vem ele!) em que os carros eram 100% eletromecânicos. O tempo em que era possível desmontar um rádio ou um relógio e reconstituir tudo, identificando peça por peça.

Naquele tempo, uma profissão era pra vida toda. A experiência valia ouro, o conhecimento valia prata e a flexibilidade era bronze, no máximo.

Essa gente teve de passar cada uma das transições entre a programação de computador com cartões perfurados até os programa web-based; da lâmpada incandescente ao led azul; do jornal impresso aos canais de notícias multiplataformas; da TV preto e branco aos canais no YouTube.

Nos escritórios de Arquitetura e de Engenharia, a transição do papel vegetal e caneta nanquim para o AutoCad foi brutal. A transição do AutoCad para o BIM não é nada perto daquilo;

Nas salas de aula a transição do giz e quadro negro para o retroprojetor foi impactante. A transição do retroprojetor para o datashow não foi nada;

A transição dos bancos de papel e máquina Facit para caixas eletrônicos foi muito complexa e difícil. A transição dos caixas eletrônicos para os aplicativos de celular não foi nada.

A transição do telefone fixo para o celular mudou tudo. Do celular para o smartfone foi só uma evolução.

A transição do livro impresso para o e-book e os Kindles da vida não é nada.

Não estou dizendo, aqui, que as pessoas "do meu tempo" são melhores ou que "aquele tempo" era melhor ou que as pessoas faziam coisas melhores. O ponto aqui é outro: as pessoas que nasceram há menos de 30 anos viveram transições muito mais suaves. Não viveram nenhuma revolução. Já nasceram num mundo com computador em casa e internet disponível. É preciso ter claro que a história da ciência e da tecnologia não começou na década de 1990.

As pessoas mais jovens têm muito mais facilidades para serem (ou tornarem-se) Fluxers. Mas é preciso entender que as pessoas que não encaram com naturalidade essas mudanças não são pessoas de segunda linha. São pessoas para as quais essas mudanças são muito grandes. Não são apenas alguns passos. São caminhadas gigantescas.

São apenas pessoas que (ainda) não foram suficientemente motivadas a abraçar as novas tecnologias e os novos valores.

O nosso trabalho é convencê-las de que neste lado da força (no mundo dos gadgets, dos aplicativos, das profissões fluidas e das atividades multidisciplinares) a vida tem mais futuro.





PADILHA, Ênio. 2020

Comentário #1 — 12/03/2020 11:51

Farlley Derze — Músico, professor, militar da reserva — Brasília

Penso que a velocidade de transição das ferramentas é uma oportunidade para as novas gerações encontrarem nas gerações anteriores, um nicho de mercado no sentido de ensinar os menos adaptados à velocidade a dar um passo de casa vez.
Refiro-me ao ensino dos usos e funções das ferramentas. E cada área profissional tem lá o seu “repertório tecnológico” que, a meu ver, é a interface entre duas gerações em que a mais jovem pode capitalizar quando a mais antiga demonstrar interesse em saber lidar com a(s) ferramenta(s).

Todavia, existe ainda a possibilidade de se contratar o mais jovem para executar a tarefa, por exemplo, um cadista ou alguém que escreva partituras de música em softwares como Sibelius, Finale ou Notion. Dentro do contexto intergeracional vejo que as tecnologias também funcionam para estreitar laços de conhecimento. Recentemente minha esposa leu um artigo que dizia “é mais difícil fazer amigos após os 50 anos de idade”. Em analogia ao seu artigo, prezado Ênio Padilha (sempre criterioso e lúcido), novos amigos e novas tecnologias são “novidades psicológicas” para uma mente ter que enfrentar, especialmente aquelas que dormem e acordam com a sensação do dever cumprido. Mas sim, é possível aprender. Os jovens (como já fomos) nos empurram, nos auxiliam, nos ensinam com aquela energia característica da idade.

A palavra-chave, no meu caso (57 anos) é “necessidade”. Eu tenho necessidade de ler: adquiri um iPad Pro (12 polegadas) e leio nele os livros de meu interesse. Tenho necessidade de escrever: pago uma anuidade para usar o software Ulysses, feito para atender aos escritores (comandos-chaves, formatações, edição de texto, etc.). Tenho necessidade de escrever as partituras de minhas composições. Comprei os softwares “Sibelius” para o Mac e “Notion” para o iPad Pro. No YouTube temos todas as dicas vindas de muitos países sobre os macetes de uso dos softwares. É um mundo novo e, melhor, os idosos são benvindos e aprendem com dicas pela inter ou o auxílio dos mais jovens. Depende da necessidade de cada um.
Parabéns pelo artigo.

Réplica de Ênio Padilha

Muito bem colocado, Farlley. Essas suas considerações enriquecem muito a reflexão proposta pelo artigo.

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