ENGENHEIROS E ENGENHEIROS

(Este artigo foi publicado na primeira edição do livro MARKETING PARA ENGENHARIA E ARQUITETURA -- 1998)



Em abril de 1987, um tanto indignado com o que eu vi nos primeiros meses de atuação como engenheiro, escrevi um texto bastante agressivo, combatendo o profissional padrão, que ficava sentado atrás da sua prancheta esperando que algum cliente, tangido pelas leis, viesse contratá-lo.

Na época, eu queria publicar o escrito, mas alguns \"colegas\" me desestimularam com o argumento de que eu era muito novo na coisa e não sabia com quem eu estava me metendo.

Hoje, exatamente por saber com quem estou falando, sinto-me à vontade para publicar, na íntegra, o texto \"perigoso\". As pessoas a quem ele vai perturbar não representam perigo algum, a não ser a si mesmas e à Engenharia, enquanto atividade digna e importante.

Felizmente, passados tantos anos, muita coisa mudou e o pensamento de muitos profissionais mudou também. Mas o texto serve, de certa forma, para dar uma idéia de como era encarado o exercício profissional naquela época.


ENGENHEIROS E ENGENHEIROS



(Publicado em 10/04/1987)



Quem nunca ouviu alguém fazer um comentário acerca da importância que tem a assinatura de um engenheiro num projeto, seja de uma casa, de um prédio, de uma indústria ou seja lá o que for?

Ate aí, tudo bem. O problema é que, para a imensa maioria dos brasileiros, a importância do engenheiro só se evidencia na sua assinatura, não no seu trabalho.
Para boa parte da sociedade, o engenheiro \"serve para assinar os projetos, permitindo assim que se dê legalidade aos processos de construção em geral\".

Se as leis que obrigam o cidadão a apresentar um projeto (assinado por um engenheiro) para fazer sua construção simplesmente deixassem de existir, muitos engenheiros ficariam em maus lençóis.

Por quê? É que, por razões culturais, por razões conjunturais e pela soma de pequenas e grandes ações ao longo dos últimos 10, 15, 20 ou 30 anos, o comodismo, a incapacidade e a visão torta da sociedade e dos próprios engenheiros criaram um estado de espírito nos profissionais que é, no mínimo, suicida.

No longo prazo, aqui no Brasil, todas as leis têm efeito colateral. No caso da engenharia o efeito é terrível: com a existência das leis que obrigam o cidadão a apresentar um projeto (assinado por um engenheiro) o brasileiro comum, obcecado pela idéia de \"levar vantagem\", corre do \"prejuízo\" tentando, na pior das hipóteses, fazer com que essa assinatura custe o menos possível.

Do outro lado, o engenheiro, obcecado pela idéia de fazer cumprir a lei que o beneficia, corre atrás do \"lucro\", esquecendo-se de \"vender\" seu serviço (convencer o cliente de que existem vantagens reais na contratação dos seus serviços).

Já não se fala mais em projeto. Fala-se em assinatura do projeto.
Não se fala mais em soluções tecnicamente viáveis e economicamente interessantes. Fala-se em regularização burocrática, cumprimento da lei, aprovação na prefeitura...

Fantasticamente, os engenheiros parecem não se importar com isso. Sentados confortavelmente atrás de suas pranchetas, ficam esperando que os clientes apareçam, tangidos pelas leis \"protetoras\", à procura de um projeto (leia-se documento) assinado, de acordo com a lei.

Muitas vezes até, o cliente já traz o projeto pronto. Só precisa da assinatura. E o \"engenheiro\" nem fica com vergonha. Assina com prazer.
O prazer de um insensato! De alguém que pensa ser muito importante, mas que assina seu próprio certificado de incompetência e de estorvo na sociedade.
O engenheiro, que deveria ser a solução, transforma-se em parte do problema.
Um mal, infelizmente, necessário.



ÊNIO PADILHA
www.eniopadilha.com.br | professor@eniopadilha.com.br




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Não deixe de ler

ÁGUA E VINHO, artigo publicado em agosto de 2009 e que aponta como equivocados os pressupostos que criaram e estruturaram nosso sistema profissional;

NOSSAS INTERMINÁVEIS BRIGAS INTERNAS, artigo que apresenta um dos \"10 Mandamentos para o Exercício Profissional Sustentável\" (Não investir energias nas brigas internas das profissões). Os Dez Mandamentos estão incluidos no artigo que foi Texto Referencial para o 7º Congresso Nacional de Profissionais em 2010;

O QUINTO MANDAMENTO, artigo que defende a tese de que Engenheiros e Arquitetos deveriam se preocupar menos com as brigas entre si e mais em desenvolver o imenso mercado potencial de Engenharia e de Arquitetura que não está sendo ocupado por esses profissionais.

Comentário #1 — 14/02/2012 14:59

wallace camilo — eletrotécnico — RIO VERDE GO

Olá Ênio, gostei das suas colocações em relação ao que voce pensa a respeito de certos tipos de profissionais, sou elétrotécnico e estudante de engenharia e concordo que devemos nos preocupar mais com a qualidade técnicas dos serviços do que com uma mera assinatura. Como sempre atuei na execução e já trabalhei com alguns engenheiros eletricistas vejo que eles se preocupam apenas com o nome no projeto metaforicamente falndo "Esse filho aí é meu " e se esquecem que devem acompanhar o serviço de perto, mas pra que , sujar minha linda camisa branca do Super Engº. se tenho quem o faça. engenharia tem que ser igual na China...

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