O QUE ARQUITETO TEM A VER
COM A MORTE DE OPERÁRIOS NAS OBRAS?

(Este artigo foi publicado em 27/02/2014)




ÊNIO PADILHA
professor@eniopadilha.com.br





Li, neste post AQUI que a starchitect iraquiana Zaha Hadid teria dito numa entrevista que \"arquitetos não têm nada a ver com as mortes de operários em canteiros de obras\". (ela se referia à centenas de acidentes de trabalho, com mortes, que têm ocorrido com operários nas obras dos estádios para a Copa do Mundo Fifa de 2022, no Qatar)

Do ponto de vista legal, não há como discordar dela, já que ela não é responsável pelas obras em questão. No entanto (e, principalmente, lendo os comentários de outros leitores no site) não há como não considerar esse assunto interessante, do ponto de vista humano.

Creio (considerando-se que ela não tenha sido mal interpretada pelo entrevistador) que a arquiteta expressou-se muito mal. Demonstrou uma frieza e um distanciamento de um problema social gravíssimo que deveria, sim, ser da sua conta.

As pessoas que estão morrendo nas obras são seres humanos que estão se entregando à tarefa de tornar concretos os sonhos dos arquitetos. Merecem um pouco mais de consideração.

Acho muito importante que o projetista (seja de Arquitetura, de estruturas ou de obras de instalações) tenha a preocupação com o processo construtivo, durante a fase do projeto. Em todos os projetos que eu fiz na vida, a preocupação sobre o \"como fazer\" sempre foi tão importante quanto \"o que fazer\". Senão não é projeto. É delírio!

Li outro dia que, no Japão, os arquitetos precisam incluir nos seus projetos as soluções construtivas para elementos mais audaciosos dos seus projetos (se alguém tiver mais informações sobre isso, agradeço). Eu considero muito importante.

Quanto às eventuais considerações políticas (de governos) apontadas pela arquiteta. Acho que uma profissional com a sua reputação poderia, sim, usar seu prestígio para forçar governantes a assumir posturas mais responsáveis em obras dos seus projetos. Seria uma baita contribuição social.

O que você acha?



ÊNIO PADILHA
www.eniopadilha.com.br | professor@eniopadilha.com.br




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---Artigo2014

Comentário #1 — 27/02/2014 18:27

Jean Tosetto — Arquiteto — Paulínia

No Pentateuco, que reúne os cinco primeiros livros da Bíblia, o Senhor relata para Moisés como deseja que seja construída a tenda para sua adoração, enquanto o povo judeu está vagando pelo deserto, antes de chegar à terra prometida. É, certamente, um dos memoriais descritivos mais antigos da história da humanidade.
Séculos antes, o Senhor separa os construtores da Torre de Babel através de novos idiomas, para evitar uma catástrofe tendo em vista o arrojo da proposta do projeto: erguer a construção mais alta do mundo.
Logicamente um arquiteto não é uma divindade, embora alguns se sintam assim bem no íntimo, mas ele precisa ter em mente duas coisas para elaborar um projeto:
1) Como fazer (memorial descritivo e construtivo).
2) Vale a pena fazer? (memorial justificativo).
Um arquiteto não pode se considerar alguém inatingível e dissociado da realidade. Portanto, se ele não tem responsabilidade civil sobre uma obra na qual não seja o responsável pela execução, ele tem a responsabilidade moral de projetar algo que seja realizável dentro dos procedimentos aceitos de segurança.

Réplica de Ênio Padilha

Amigo Jean
O que você escreveu no seu comentário eu gostaria de incorporar no meu artigo. Tá perfeito!

Comentário #2 — 02/03/2014 11:49

Silton Henrique — Arquiteto e Urbanista — Cajazeiras/PB

Há dois pontos de vista que suponho virem a calhar, quanto à interpretação do que a arquiteta afirma. Partindo do pressuposto que a mesma se manifestou em relação às atribuições e competências contratuais da obra em questão, ela tem razão, por mais que suas palavras (ver tradução) tenham conferido ar de desprezo moral e ético. Para isso, seria necessário examinarmos o contexto da pergunta do entrevistador. Porém, como bem interpreta Ênio Padilha, questões de ética e moral devem ser observados, quando a mesma ocupa lugar de destaque no cenário da arquitetura mundial. Isso é lógico e cristalino e repercutirá na absorção de sua idoneidade, pelo menos para o conceito de sua reputação, principalmente para as novas gerações de estudantes de arquitetura quem leem e que encontram no trabalho dela uma referência. Seria igualmente interessante um artigo onde pudéssemos discutir a validade da arquitetura fantástica, mesmo que com a propriedade dos avanços tecnológicos. PS: Os operários estão tornando concreto um projeto que julga-se ser bem planejado e não um \"sonho\" da arquiteta popstar.

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