PENSO, LOGO EXISTO

(Publicado em 31/07/2020)



Isaac Newton escreveu, em 1675: "Se eu vi mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes."
Um dos gigantes aos quais ele se referia, certamente era René Descartes, um filósofo e matemático francês quase contemporâneo (Descartes morreu em 1650, quando Newton tinha 7 anos de idade). O temperamental (e genial) francês foi certamente um gigante cujos ombros serviram de base para que muitos outros vissem muito mais longe e muito mais claramente nos 400 anos seguintes.





Acabei de ler o livro DESCARTES - UMA BIOGRAFIA INTELECTUAL do autor britânico Stephen Gaukroger, obra publicada em 1995.

Uma biografia intelectual trata não apenas do biografado e seus feitos. Cuida também do contexto no qual o personagem atuou e, principalmente, da atmosfera intelectual capaz de influenciar e moldar a maneira como ele desenvolveu suas ideias e ações. E o contexto daquelas primeiras décadas do século XVII era particularmente complexo.

Li, numa biografia de Isaac Newton (não lembro qual autor, faz muito tempo) que, se tivesse nascido 70 anos antes, Newton não teria conseguido produzir suas descobertas. Galileu Galilei nascera 78 anos antes de Newton. No livro que eu li o autor afirmava que o físico inglês não tinha o temperamento e a coragem de Galileu e jamais teria enfrentado as coisas que o italiano enfrentou. Rene Descartes, em termos de temperamento, estava mais para o seu contemporâneo Galileu do que para Newton (embora existam registros de que Descartes deixou de publicar pelo menos um de seus livros por receio das consequências. Le Monde foi concluído em 1633 (mesmo ano em que Galileu foi condenado pela Igreja Católica) mas só foi publicado depois da morte do autor).

Descartes vinha de uma família de aristocratas. Estudou nas melhores escolas e teve acesso às melhores mentes da sua época. Tinha uma saúde frágil, mas isso nunca interrompeu sua produção intelectual. Era um livre pensador. Não tinha patrono (o que era incomum no seu tempo). Suas contribuições para a Física, a Matemática e a Filosofia atravessaram 400 anos e são importantes até os dias de hoje.

Ele nasceu e teve sua formação intelectual na França, onde viveu os primeiros 22 anos de vida. Depois esteve na Alemanha, na Itália e finalmente, aos 32 anos, foi para a Holanda, onde viveu os 20 anos seguintes, quando retornou à França. Curiosamente ele morreu (de pneumonia) na Suécia, para onde tinha ido em visita à rainha Cristina com quem mantinha amizade e correspondência. Suprema ironia: Descartes estava em vias de ser, pela primeira vez, patrocinado pela rainha que o tinha na mais alta conta.

Esse é o resumo.

Mas o que torna René Descartes uma espécie de patrono informal da Engenharia é exatamente o método cartesiano que é o Ceticismo Metodológico

Segundo esse método, deve-se duvidar de tudo o que não pode ser provado. Simples assim. Até mesmo a existência do próprio EU precisa ser provada. Descartes considera que se ele duvida é, portanto, sujeito de algo - cogito ergo sum: PENSO, LOGO EXISTO.

O método consiste basicamente em:
(1) Descobrir quais são as conclusões possíveis e nunca aceitar nada como verdadeiro à primeira vista (ceticismo);
(2) fazer vários experimentos e dividir o problema em quantas partes for possível;
(3) analisar os resultados e ordenar o pensamento;
(4) Tomar as conclusões (que devem estar de acordo com o passo 1) e buscar a possibilidade de misturá-las com lógica, para chegar a apenas uma conclusão.

Isso pode parecer óbvio nos dias de hoje. Mas foi absolutamente revolucionário no século XVII. A contribuição de Descartes foi extremamente importante para o desenvolvimento constante e criterioso do conhecimento verdadeiro nas ciências através dos séculos seguintes.

Descartes criou a Geometria Analítica (minha matéria favorita na faculdade de Engenharia), aquela que apresenta o sistema de coordenadas com eixos horizontal e vertical (o sistema cartesiano) e permite descrever o plano (ou o espaço) através de conjuntos de números.

Seu livro mais famoso, claro, é o Discurso do Método, no qual faz uma breve autobiografia, em que, aliás, faz (tenta fazer) o estilo de autor humilde, que não lhe cabia bem:



“Não é meu propósito ensinar aqui o método que cada um deveria seguir para o bem orientar a sua razão, porém somente demonstrar de que modo procurei conduzir a minha”.



Mas nada se compara ao que está no primeiro parágrafo do livro, no qual ele começa a demolir qualquer pretensão do leitor em duvidar do que terá pela frente:



“Não existe no mundo coisa mais bem distribuída que o bom senso, visto que cada indivíduo acredita ser tão bem provido dele que mesmo os mais difíceis de satisfazer em qualquer outro aspecto não costumam desejar possuí-lo mais do que já possuem.”.



Neste 2020 comemoramos exatos 400 anos das primeiras publicações de René descartes.
Na minha fraca opinião deveríamos ter uma estátua de bronze dele em cada faculdade de Engenharia do Brasil (ou do mundo). Seria mais do que justo.





PADILHA, Ênio. 2020




O arquiteto Jean Tosetto, num comentário do Facebook recomendou outro texto (de sua própria autoria) publicado no seu site: O MÉTODO CARTESIANO APLICADO AOS INVESTIMENTOS.
Recomendo a leitura.





REFERÊNCIAS:
1) GAUKROGER, Stephen. Descartes - uma biografia intelectual. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1999.
2) DESCARTES, René. Discurso do Método. Versão eletrônica do livro. Tradução de Enrico Corvisieri. Disponível em http://www.eniopadilha.com.br/Descartes_Metodo_download.php

Comentário #1 — 03/08/2020 12:38

Farlley — Músico — Brasília-DF

Excelente matéria. Li e tenho em casa o livro, em francês, “Discurso do método). É fabuloso. Como dito no seu texto, prezado Ênio, foi uma revolução para uma época tão acostumada (e pressionada) a “crer”, sem questionar, em “verdades” impostas pela igreja oficializada que estava de braços dados com monarquias. Propor um método novo de pensamento é sempre uma revolução.

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