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NOSSOS VIZINHOS ALEMÃES (Carlos Alberto Padilha)
(Publicado em 16/08/2022)
Mais uma pras minhas Notas Autobiográficas
Na data em que esta crônica é publicada aqui no meu site, meu querido irmão Carlos Alberto completa 65 anos. É muita história pra contar
Há 20 anos ele teve um sensacional surto de escritor e, durante vários meses, me enviou por e-mail crônicas com as suas memórias de infância
(Os nossos vizinhos alemães são, sem dúvida, uma memória das mais agradáveis daquela época. Dona Elvira e Seu Teodoro, viviam lá em casa. Jogavam canastra com os nossos pais e se divertiam muito. Mais tarde, em 1966, tornaram-se padrinhos de uma das minhas irmãs, a Preta.
Nos anos de 1975 e 76, eu já quase adulto, me lembro de ter ido diversas vezes visitá-los em Blumenau, para onde haviam se mudado havia alguns anos.
Enfim... divirtam-se! (e deixem seus comentários, no final)

Imagem: EnioPadilha
Salve tio Ênio. Recomendações nossas às meninas.
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Quando em 1962 fomos morar no bairro Canta Galo, ao lado de nossa casa, morava uma famÃlia de origem alemã.
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Seu Teodoro Walsenburgen, dona Euvira e seus dois filhos, Osni e Eunice.
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Nossos vizinhos só falavam em alemão. Recordo que de imediato achei tudo muito estranho, afinal não estava acostumado a ouvir outro idioma, conseqüentemente não entender o que uma outra pessoa falava.
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Entre às duas casas, não havia nenhuma divisão do tipo cerca, muro ou equivalente. Por isso, o contato quase que imediato com as crianças do vizinho foi inevitável.
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Não demorou muito e um menininho de cabelos quase brancos de tão loiro "me" veio puxar assunto. Em alemão é claro.
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Quando encerrou aquilo que imagino tenha sido uma frase, e me olhava cobrando uma resposta, corri imediatamente para dentro de casa, para  relatar o fato à minha mãe, que puxada pela mão veio até a rua ver o menino de fala estranha.
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Dona Mathilde, esperta, buscava a aproximação com os vizinhos  e sabia que seria através das crianças. Sem delongas ou se importar de ser ou não entendida,  falou com o menino, em português meio "sotaqueado"* que me deixou ainda mais espantado. Pensei "Será que é assim que se fala com essa gente?" Â
Ao terminar a frase, minha mãe ficou olhando o guri, cobrando-lhe uma resposta. Foi a vez dele sair correndo para dentro de casa, com certeza contar à  sua mãe o ocorrido.
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Frustrada a primeira tentativa de entendimentos, vieram naturalmente outras. Nossa mãe nos explicou que se tratava de uma outra lÃngua, que nós não compreendÃamos. O piazinho* alemão era muito curioso. Volta e meia estava ele a rondar nossa porta dos fundos, a espiar o que fazÃamos. Isso era positivo, pois nos dava a oportunidade de aproximação ao vizinho "estrangeiro".
De certa feita, estava nossa mãe a fazer bolinhos (daqueles de chuva) e o menino a espreitar do lado de fora. Dona Mathilde, sutilmente, ofereceu ao "alemãozinho" um dos quitutes, mas foi surpreendida com os gritos da mãe do menino para que viesse para casa. (Tudo em alemão!)
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Como disse, Dona Mathilde era experta. Dessa vez tinha um plano de aproximação que certamente não falharia.
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Preparou em um pratinho, uma meia-dúzia daqueles bolinhos, e me mandou levar para os alemães com as honrarias da casa. Meio tÃmido e até com medo confesso, me dirigi à casa de nossos vizinhos e fiz a entrega.
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A mãe do rapazinho me recebeu com sorriso franco, e agradeceu em bom português. Lembro que voltei correndo contar para minha mãe que a mulher falava a nossa lÃngua. Ficamos todos felizes. Logo, um outro dia, o alemãozinho veio com o mesmo pratinho cheio de bolinhos em forma de coração, feitos em uma fôrma wafer, nos devolvendo a gentileza.
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Assim, com o passar do tempo, nossas famÃlias tornaram-se muito amigas. A propósito do idioma, meu irmão Didi, calmo e pacÃfico, porém, decidido, impôs sua lÃngua ao amiguinho alemão ao ponto de nossos pais admitirem que o Didi foi quem o ensinou falar português.
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E pelo que recordo, é verdade. Meu irmão Didi só brincava com o alemão se fosse em português. Afinal, as brincadeiras eram em português, logo... Â
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Posso garantir que foram anos de grande amizade entre nossas famÃlias, até que, como tudo passa.... Passou... Ficaram à s lembranças....
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Abraço tio Ênio. Beijos para as meninas!Â
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* piazinho - Diz-se a um menino pequeno; garotinho; criança.
* sotaqueado - Termo empregado  na forma de verbo, embora seja o verbo inexistente.

CARLOS ALBERTO PADILHA, 26/AGO/2002
Leia também: COPAS DO MUNDO
Primeiro artigo da série, com as memórias das copas do mundo, até 2002
O VELHO REX
(...) todo cachorro quando está comendo ainda que seja velho e louco, não admite interferência. O cão me advertiu rosnando seriamente...
NOSSA PRIMEIRA COMUNHÃO
(...) compromisso é compromisso e o ensaio geral era muito importante. De modo que não havia jeito,  teria que ir assim mesmo. Até a Igreja foi tudo bem, afinal "moleques" na rua andam de qualquer maneira. Mas na Igreja não!
O CASO DO BALANCINHO
(...) De súbito minha mãe me pediu silêncio e, num gesto como de espreita dona Mathilde ergueu a cabeça concentrando-se para ouvir melhor algo que por certo lhe parecia estranho. E era!
O CAFEZINHO DO PAI
(...) Não havendo como conservar o café quente, o jeito era esquentar (requentar) cada vez que o quisesse. Assim, levava-se o bule com café ao fogo, esquentando-o com cuidado para que não fervesse
O CAFEZINHO DO PAI (2)
(...) Todos sabemos que não se deve usar os próprios dedos como termômetro (muito menos para saber se um café está quente ou não). Mas será que o nosso irmão Edson sabia?
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