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O DIDI PESCADOR - DOMINGO É DIA DE PIQUENIQUE (Carlos Alberto Padilha)
(Publicado em 29/08/2022)
Mais uma pras minhas Notas Autobiográficas
Escrito há 20 anos pelo meu irmão mais velho, Carlos Alberto, que teve um sensacional surto de escritor e, durante vários meses, escreveu crônicas com as suas memórias que me enviava por e-mail.
(Sobre essa história, uma curiosidade: eu adorava pescar. Por alguma razão que eu não consigo identificar, esse gosto pelas pescarias perdeu-se completamente. Há mais de 50 anos que não pesco mais)
Enfim... divirtam-se! (e deixem seus comentários, no final)

Imagem: EnioPadilha
Olá Didi. Muitas felicidades junto às tuas meninas!
Das coisas de minha infância que bem me recordo, era a beleza do Rio Itajaà Açu.  Morávamos à beira dele cerca de uns 15 a 20 metros. O rio se constituÃa numa interminável fonte de lazer à  população ribeirinha, que iam desde banhos animados entre amigos e familiares, a passeios de canoas, (bateiras)  e à s pescarias é claro.
Eram os anos 60, e o Itajaà Açu de águas claras e de margens acessÃveis, guardava uma quantidade de espécies de peixes para o deleite dos amantes da pesca. Mandins, jundiás, carás, piavas, tajabecos, traÃras, cascudos, carpas etc, eram facilmente pescados.
Além dos banhos de rio no verão, nos divertÃamos também pescando de anzol em caniço nas barrancas do velho Itajaà Açu. Mas o que mais gostávamos, era quando nosso pai anunciava que no domingo farÃamos piquenique.
A mais ou menos 1 hora de canoa, rio a baixo de nossa casa, havia uma ilha que era freqüentada por muitos que buscavam divertimentos. Lá se armavam barracas improvisadas, e passava-se o dia a pescar.
Dona Mathilde providenciava os apetrechos e mantimentos para o dia de pesca. Um ou dois pães feitos em casa, uma farofa as vezes com linguiça ou carne seca, o óleo para a fritura dos peixes, frigideiras,  panelas, enfim, o essencial para um dia fora de casa.
Cada um de nós tinha o seu material de pesca. Um caniço com um anzol.
No clarear do dia de domingo, lá se ia nossa famÃlia embarcada na canoa com meu pai e minha mãe aos remos rumo à ilha. Rio a baixo, já Ãamos pescando. Quando chegávamos na ilha, já acumulávamos uma boa quantidade de peixes.
Meu irmão Didi, era o que mais gostava de pescar. Além disso, contava com uma sorte muitas vezes inexplicável. Recordo, que em um desses dias, já na ilha, fomos à pesca. Cada um escolhia um bom lugar e atirava o anzol à espera de um peixe.
Lembro que eu já estava  a alguns minutos segurando meu caniço e nada de peixe. Sequer beliscavam. Enquanto isso, a uns dez metros ao lado, meu irmão Didi enchia seu baldinho, exibindo a quantidade e tamanho dos vertebrados aquáticos.
A indignação me tomava conta. Afinal, por que eu sendo mais velho, não pescava nada, e na minha cabeça infantil, eu teria que ser melhor pescador para servir de exemplo. Só que os peixes não sabiam disso.
Bem! Se eles não sabem, eu sei. Tomo eu a atitude que deveria ser deles. Impondo minha condição primogênito, praticamente ordenei a meu irmão que trocasse de lugar comigo. O Didi por sua vez, não relutava. Não que me obedecesse na condição de irmão mais novo, mas porque não se importava onde iria pescar.
PacÃfico como era seu jeito, dirigiu-se para o lugar onde eu estava e lançou seu anzol na água. Do mesmo modo, ocupando o lugar que pescava meu irmão, fiz o mesmo.
Sem muita demora, vi quando o Didi alçou o anzol da água, e preso nele um peixe desdobrava-se fisgado ao engodo. E logo em seguida, mais uns três ou quatro. Quanto a mim, continuava sapateiro.*
"Será que os peixes daqui, foram pra lá ?" Pensava eu indignado. "Não! Isso deve ser o anzol!"
- Didi. Chamei meu irmão.
-Â O que!
- Me empresta o teu anzol?
- Pra que?
- Só pra mim ver uma coisa!*1
- Que coisa?
- Ah, uma coisa, assim!
- Tá bom! Concordou ele, me cedendo sua vara de pescar, me advertindo de que seria por pouco tempo. Sugeri que pescasse com meu anzol, enquanto eu "fizesse o teste".
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Lancei o anzol na água e aguardei ansioso por um beliscão na isca. Inexplicavelmente, antes que eu pegasse o primeiro peixe com o anzol de meu irmão, ele pescou um com o meu e no lugar onde primeiro eu estava. "Não é possÃvel!" Pensei. E o Didi continuou pegando peixes e eu nada.
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- Didi! Chamei.
- Queres o teu anzol de volta?
- Não! Podes ficar com ele! " Respondeu tranqüilo.
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Foi o fim. Tratei de buscar outro entretenimento, desistindo de pescar.
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Decididamente, pescar era coisa para o Didi pescador.
Â
E foram assim muitas vezes. Se tinha sorte não sei, mas o certo é que era o campeão da pesca.
Â
Contudo, é bom que se faça um registro. Não só por pescar mas também  por outras coisinhas, o Didi era chamado de "Gastão".*
Â
Gastão, grande beijo, também para as meninas.

CARLOS ALBERTO PADILHA, 16/AGO/2002
* - (Sapateiro) Diz-se, popularmente, daquele que em pescaria não pega peixes.
* - (Gastão) Personagem de Walt Disney, que tem muita sorte.
*1 – Pra eu ver uma coisa! – (licença poética)
Leia também: COPAS DO MUNDO
Primeiro artigo da série, com as memórias das copas do mundo, até 2002
O VELHO REX
(...) todo cachorro quando está comendo ainda que seja velho e louco, não admite interferência. O cão me advertiu rosnando seriamente...
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(...) compromisso é compromisso e o ensaio geral era muito importante. De modo que não havia jeito,  teria que ir assim mesmo. Até a Igreja foi tudo bem, afinal "moleques" na rua andam de qualquer maneira. Mas na Igreja não!
O CASO DO BALANCINHO
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O CAFEZINHO DO PAI
(...) Não havendo como conservar o café quente, o jeito era esquentar (requentar) cada vez que o quisesse. Assim, levava-se o bule com café ao fogo, esquentando-o com cuidado para que não fervesse
O CAFEZINHO DO PAI (2)
(...) Todos sabemos que não se deve usar os próprios dedos como termômetro (muito menos para saber se um café está quente ou não). Mas será que o nosso irmão Edson sabia?
O DIDI PESCADOR - DOMINGO É DIA DE PIQUENIQUE
(...) Sem muita demora, vi quando o Didi alçou o anzol da água, e preso nele um peixe desdobrava-se fisgado ao engodo. E logo em seguida, mais uns três ou quatro. Quanto a mim, continuava sapateiro
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