(Publicado em 30/09/2022)
Mais uma pras minhas Notas Autobiográficas
Há 20 anos meu irmão mais velho, Carlos Alberto, teve um sensacional surto de escritor e, durante vários meses, escreveu crônicas com as suas memórias que me enviava por e-mail.
(A tal Volta do Uba era um trecho do caminho entre a nossa casa e a escola -- Anibal de Barba -- onde a gente estudava)
Enfim... divirtam-se! (e deixem seus comentários, no final)

Imagem: pexels.com
Mais uma tio Ênio. Que a harmonia reine em tua casa!
Pois é. Dizia-se da velha casa da volta do Uba, que era mal assombrada. (por certo seria bem assombrada, mas...)
Nela, à noite, viam-se vultos fantasmagóricos, e luzes que piscavam e sumiam como apareciam, e pra fechar, ouviam-se gemidos também.
Não tinha jeito. Era mal assombrada e pronto. A casa estava abandonada havia vários anos. Contavam os mais antigos, que sua última moradora, uma senhora de idade, falecera ali desprezada pelos filhos e parentes. E iam mais longe: falavam que a velha antes de morrer sofria muito com sua doença, e a dor que sentia a fazia gemer muito. E eram exatamente os gemidos da velha que se ouviam nas noites daquele tempo.
Contavam ainda, que a velha senhora havia prometido que ao morrer, voltaria para se vingar daqueles que não a ajudaram, etc, etc, etc.
Eu particularmente, temia passar pela casa até mesmo de dia. À noite? Nem pensar!
Assim, as história sobre a velha casa, eram conhecidas de todo o bairro.
Na volta do Uba, porque se localizava na curva da estrada que circundava as terras de propriedade de um senhor de origem alemã, de sobre-nome "Uber", de cuja casa também era dono.
Para histórias do gênero, o quadro era perfeito. Casa velha, curva da estrada, vultos, luzes e, naturalmente, os gemidos. O bairro tinha sua casa assombrada. Ou mal assombrada como queiram.
Curiosamente, com tantas coisas que se contavam, nunca alguém quis desvendar aqueles mistérios. A velha casa era assim, e isso punha um ponto final no caso. E foi assim por anos. Eram os vultos, as luzes, os gemidos, a casa é (mal) assombrada, é bom não chegar perto, cuidado com a velha... e era por ai.
Mas como tudo nesta vida passa, o tempo da casa passou. Um dia o velho Uba partiu, e seus herdeiros mandaram demolir a velha morada.
Hora de saber a verdade!
O carpinteiro contratado para a demolição da casa, conhecido como "Depiné" um sujeito sabidamente fofoqueiro, contou aos quatro cantos do bairro, o que encontrou ao desmanchar o casebre. Disse ter encontrado, um número expressivo de preservativos (usados evidentemente) jogados pela casa. Estava morto o fantasma da velha!
Explica-se:
Os vultos: nos anos 60, as ruas do bairro não eram iluminadas, logo, tudo e todos, à noite, eram vultos;
As luzes: bem, quanto às luzes, presume-se que os casais de namorados que frequentavam a casa para namorar com privacidade, se utilizavam provavelmente de "isqueiros" para iluminar brevemente o local, obviamente para não serem surpreendidos por algum bicho ou por qualquer outra coisa.
Os gemidos: os gemidos? Bom! Os gemidos... eram mesmo da velha reclamando!
Querido mano. Um forte abraço e beijos para as três moças.

CARLOS ALBERTO PADILHA, 10/AGO/2002
Leia também: COPAS DO MUNDO
Primeiro artigo da série, com as memórias das copas do mundo, até 2002
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