(Publicado em 30/09/2022)
Mais uma pras minhas Notas Autobiográficas
Há 20 anos meu irmão mais velho, Carlos Alberto, teve um sensacional surto de escritor e, durante vários meses, escreveu crônicas com as suas memórias que me enviava por e-mail.
(O tal caminhão das Balas Bela Vista era, sim, um desafio pra quase todos os meninos corajosos. Eu não tava nesse time. Eu sempre fui muito cuidadoso com essas coisas de arriscar danos fÃsicos. Não era do tipo que mergulhava de cabeça nos riachos nem andava de bicicleta a toda velocidade. Preferia a calma e a segurança.
Mas o meu irmão... esse era doido de pedra. Não podia ver um perigo que já queria correr...Deu sorte de não apanhar nesse dia.)
Enfim... divirtam-se! (e deixem seus comentários, no final)

Imagem: BalasBelaVista
Bom dia amado irmão.
Revivendo as memórias de nossa infância, existem coisas que fizemos, que eram extremamente difÃceis de contar para a nossa querida mãe. Mas contávamos.
No tempo do meu primário, havia um caminhão que era verde, tinha uma cabine emendada a um furgão com mais ou menos uns 5 ou 6 metros de comprimento.
Nele estava escrito em letras garrafais bem grandes. Balas Bela Vista.
Na traseira do referido veÃculo, uma escada em aço com dois degraus iam de uma lateral à outra. Nas portas do furgão dois pega-mãos provavelmente de alumÃnio, serviam para abri-las.
Com estas caracterÃsticas, era o carro perfeito para a molecada do bairro se deliciar em caronas clandestinas sob os protestos do motorista. Aliás, um sujeito baixinho, meio barrigudo e de fala arrastada que todos chamavam de português.
Pois é. A cada quinze dias se bem me recordo, o dito caminhão passava pelo comércio do bairro para vender balas. Por sinal, aquele senhor chamado português, vez ou outra jogava, pela janela do carro, algumas das balas que vendia, agraciando a meninada. Mas havia uma coisa que aquele senhor não tolerava: que se pegasse carona na traseira de seu caminhão. Se percebesse, chegava mesmo a parar e correr atrás dos moleques travessos.
Porém, não acredito que algum dia tivesse conseguido pegar um de seus indesejados passageiros, tal era a velocidade com que fugiam ao serem percebidos.
Dona Mathilde que já havia presenciado caroneiros agarrados ao caminhão, achava aquilo uma loucura e, nos advertia para que nunca o fizéssemos, sob pena de levarmos umas boas "chineladas".
No entanto pegar carona no caminhão de balas era prática comum para a molecada do bairro. Quase todo guri, já havia experimentado a delÃcia de pelo menos uma viagem. Menos nós. SabÃamos que se o fizéssemos e nossa mãe soubesse, estarÃamos em maus lençóis.
Quanto a mim, vontade não faltava para viver aquela experiência. Lembro, que um dia, motivado por um de meus melhores amigos de infância (o Reinaldo "fuminho") subi clandestinamente ao caminhão. SabÃamos que o mesmo pararia perto de nossas casas já que bem próximo havia a venda do Seu Paulo Mendes. Quando parasse, descerÃamos.
Ocorre, que naquele dia o português não parou na venda perto de casa. Seguiu em frente, para desespero meu e de meu amigo. Não podÃamos gritar que parasse pois nem poderÃamos estar ali. O jeito era pensar em qualquer outra coisa, e rápido.
Com o caminhão seguindo em frente, distanciando-se de nossas casas, a única alternativa era pular.
Pular? É, pular! Ou pula, ou vai embora sabe-se lá até onde. Não tem jeito vamos pular, decidimos. E pulamos! Foi uma loucura.
Eu, ao pular, me ralei todo com o atrito no macadame da estrada. Cotovelos, joelhos, queixo, tudo ralado, queimavam em brasas. Com meu amigo não foi diferente. No entanto eu não sabia o que era mais dolorido: os machucados da queda ou contar para dona Mathilde o acontecido.
Pelo sim pelo não, melhor é inventar uma estorinha e contar pra mãe. Pensei em lhe contar que tropecei por isso me machuquei. Mas era muito machucado para um simples tropeço. E depois, éramos vizinhos de meu amigo e com certeza minha mãe iria vê-lo também machucado e.... É, não vai colar! Melhor é contar a verdade e seja o que Deus (e dona Mathilde) quiser.
"O que foi isso?" Indagou minha mãe ao me ver chegar naquele estado.
Meio sem jeito e com medo das consequências respondi com voz chorosa: "Foi o caminhão da bala."
Dona Mathilde indignada inquiriu.
"Como assim!? Ele te atropelou?"
"Não, ele só passou."
Nossa mãe que era muito experta, logo complementou.
"Ah sim! Ele passou e você subiu nele e dai caiu."
"Não, eu pulei"
"Pulou? Pulou por que?"
"Porque ele passou!"
Na verdade quando disse que o caminhão havia passado, me referia que ele teria passado de nossa casa e minha mãe entendeu que ele passou no bairro como de costume e eu peguei uma carona. Ao explicar à minha mãe com mais detalhes, cuidei em lembrá-la do que ela sempre nos dizia: "Quem fala a verdade, não merece castigo." Ademais, o castigo maior eu já havia recebido. O certo é que nunca mais peguei carona no caminhão de balas.
Hoje, sempre que vejo um caminhão escrito Balas "qualquer coisa", lembro daquele episódio de minha infância, e da responsabilidade que tenho de  falar a verdade não importa quanto doa. As vezes é sofrida a verdade.
Mas é melhor. No máss, sem dramas, um  forte abraço.

CARLOS ALBERTO PADILHA, 09/AGO/2002
Leia também: COPAS DO MUNDO
Primeiro artigo da série, com as memórias das copas do mundo, até 2002
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(...) todo cachorro quando está comendo ainda que seja velho e louco, não admite interferência. O cão me advertiu rosnando seriamente...
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(...) compromisso é compromisso e o ensaio geral era muito importante. De modo que não havia jeito,  teria que ir assim mesmo. Até a Igreja foi tudo bem, afinal "moleques" na rua andam de qualquer maneira. Mas na Igreja não!
O CASO DO BALANCINHO
(...) De súbito minha mãe me pediu silêncio e, num gesto como de espreita dona Mathilde ergueu a cabeça concentrando-se para ouvir melhor algo que por certo lhe parecia estranho. E era!
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(...) Não havendo como conservar o café quente, o jeito era esquentar (requentar) cada vez que o quisesse. Assim, levava-se o bule com café ao fogo, esquentando-o com cuidado para que não fervesse
O CAFEZINHO DO PAI (2)
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O CAMINHÃO DAS BALAS BELA VISTA
(O tal caminhão das Balas Bela Vista era, sim, um desafio pra quase todos os meninos corajosos. Eu não tava nesse time. Eu sempre fui muito cuidadoso com essas coisas de arriscar danos fÃsicos. Não era do tipo que mergulhava de cabeça nos riachos nem andava de bicicleta a toda velocidade. Preferia a calma e a segurança.
Mas o meu irmão... esse era doido de pedra. Não podia ver um perigo que já queria correr...Deu sorte de não apanhar nesse dia.)