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O POÇO (Carlos Alberto Padilha)
(Publicado em 08/12/2022)
Mais uma pras minhas Notas Autobiográficas
Hoje, 8 de dezembro, é aniversário da minha mãe, Dona Mathildes, que nos deixou em 2007. Então vou publicar aqui uma das histórias escritas pelo meu irmão mais velho, Carlos Alberto, que, há 20 anos, teve um sensacional surto de escritor e (durante vários meses) escreveu crônicas com as suas memórias que me enviava por e-mail.
(eu lembro perfeitamente dessa história do poço e ri muito quando li esse texto pela primeira vez, em 2002)
Enfim... divirtam-se! (e deixem seus comentários, no final)

Imagem: Pixabay
Salve dileto irmão escritor (de verdade).
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Outra dos tempos de nossa infância.
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Sei que bem te recordas de nossa casa à beira do rio, e que quando fomos morar nela, não tÃnhamos água potável.
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ServÃamos do Rio Itajaà Açu para beber, e realizar outras tarefas domésticas, tais como a limpeza da casa, lavar roupas, tomar banho etc.
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Claro que mesmo sendo um rio não poluÃdo, não era recomendável o uso de sua água para estes tipos de coisas. Mas, dona Mathilde fervia a água para beber e o resto ia assim mesmo.
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Um dia, nossa mãe já cansada de subir as barrancas do Itajaà Açu carregando latas d'água, resolveu fazer um poço.
Associando-se aos nossos vizinhos alemães, saÃram em busca de contratar um poceiro. Â
O poceiro mais famoso do lugar, era um senhor conhecido como Pedro Mudo. Pedro Mudo, obviamente porque não falava, era mudo mesmo.
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Contratado, seu Pedro Mudo veio ver o terreno e naturalmente indicar onde haveria água, isto é, onde escavar o poço. É, escavar.  Perfurar é coisa mais moderna, em 1963, poços eram escavados a metros de profundidade, até ser encontrada a água.
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Não por acaso, mas porque dona Mathilde exigiu, o poço foi feito em meio à s duas casas.     Â
Segundo as orientações do poceiro, haviam outros lugares onde a água verteria com menos metros de profundidade, porém, nossa mãe, disse que o poço seria ali (onde realmente foi) e pronto.Â
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Iniciadas as escavações, a mais ou menos 6 metros de fundura, sem nem sinal de água, o poceiro encontrou pedras. Depois de analisar as condições do minério, concluiu que seria necessário usar dinamites para prosseguir com a obra.
A informação gerou um estado de pânico no seu Padilha (nosso pai) e em nossos vizinhos sócios. Mas, para quem conhece a dona Mathilde, sabe que o simples fato de poder explodir alguma coisa,  já lhe era aprazÃvel. "Vamos dinamitar." decidiu a "general" Ana, para desespero dos demais envolvidos.
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O poceiro, faltava pouco  falar diante da decisão tomada por nossa mãe. Ele, aliás, com esforço de muitos gestos, havia desaconselhado a conclusão do poço naquele lugar.
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Por muitas vezes, com o auxÃlio de uma forquilha* de pessegueiro, mostrara, apontando os locais mais indicados para a escavação do tão sonhado poço.
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A propósito, todos entendiam os gestos do Seu Pedro Mudo. Menos dona Mathilde. Nossa mãe, fazia questão de não entendê-lo e até dava outras interpretações às esforçadas gesticulações e "resmungos" do mudo, insistindo no poço exatamente na divisa entre os dois terrenos.
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O pai Ênio, homem muito bom que sempre acabava cedendo aos caprichos de nossa mãe, tratou de providenciar os equipamentos e naturalmente as dinamites para explodir a pedra do poço. Â
Agora havia um outro problema! Quem ? Em 1963, numa cidade pequena como Rio do Sul, sabia trabalhar com dinamites ?
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Quem? Dona Mathilde!
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Agora havia um outro problema! Quem? Em 1963, numa cidade com pouco mais de 15 mil habitantes, sabia como fazer dona Mathilde, aos 26 anos de idade, entender que dinamite era coisa séria?Â
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Quem? Ninguém!
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Posso garantir que nenhuma das pessoas antes mencionadas  foram encontradas. O temor de nosso pai bem como de nossos vizinhos chegou a casa dos 100%. Afinal, se algo desse errado, tudo poderia e, iria pelos ares.
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No entanto, tranquila e decidida, a dona Mathilde marcou data para a dinamitação da dita pedra no poço que até então era apenas um imenso buraco no quintal das duas casas.
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"Vai ser domingo." disse aos que trabalhavam na obra. Seu Padilha desejou por certo, que o tal domingo jamais chegasse. Porém, o domingo chegou.
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Devagar, todos foram chegando em nossa casa, com ares de último dia. O nosso pai não escondia o nervosismo. Os vizinhos (sócios do buraco) ainda tentavam, em vão, convencer dona Mathilde a desistir da idéia explosiva. O poceiro, mudo, gesticulava e balançava a cabeça negativamente. No rosto, um profundo olhar de desaprovação dava a entender que tudo era uma grande loucura.  Â
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Contudo, é necessário esclarecer uma coisa: havia no bairro um senhor de nome Nelson, conhecido como o Nelson do Caminhão, que já havia trabalhado com dinamites nas pedreiras em construções de estradas. Como viajava, e suas viagens eram longas e demoradas, para a data em que dona Mathilde queria dinamitar o poço, ele não estaria na cidade.
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Porém, antes que viajasse, nossa mãe esteve conversando com o dito caminhoneiro, que lhe passou as informações e pequenos detalhes de como manejar a dinamite e fazê-la explodir corretamente e no lugar certo.
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Assim, se dizendo bem instruÃda por seu Nelson, dona Mathilde pôs-se a preparar a bomba.     Â
Dinamite; pavio no tamanho adequado; graxa patente*, uma mistura realmente de dar medo.
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Agora havia um outro problema: quem vai instalar o explosivo no fundo do poço?
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Quem? Dona Matilde?
Não! Evidente que não!
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Seu Pedro Mudo, aproveitou para sair de perto sem dizer nada, é claro. Seu Padilha não era um homem com a agilidade que o trabalho requeria, e depois, garanto que não estava disposto a explodir dentro de um buraco.
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Um outro moço que trabalhava com nosso pai, cujo nome era Roque, ajudante na obra do poço, era muito jovem e tinha medo (aliás, medo todos tinham)
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Restou o Seu Teodoro, nosso vizinho alemão. Na condição de sócio, se apresentou para fazer o trabalho.
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Então era assim: na rocha dentro do poço, foi feito um furo de aproximadamente meio metro. Nesse furo seria introduzida a dinamite, cujo pavio ou estopim ficaria para fora (lógico). O trabalho consistia em descer até a pedra, colocar a dinamite dentro do buraco, ascender o estopim e voltar, rapidamente à superfÃcie antes da explosão, é claro.
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Quando estivesse fora, o combinado era que os demais, todos juntos, tapariam a boca do poço com tábuas previamente preparadas, e já em mãos, para evitar que estilhaços atingissem alguém.
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E assim foi feito. Seu Teodoro fez todo o trabalho com muita habilidade, e saiu do poço antes da explosão.
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Sua esposa dona Elvira, de tão preocupada com o marido, foi para dentro de casa para não ver nada. Quando seu Teodoro saiu do poço, buscando se abrigar de eventuais estilhaços, jogou-se embaixo de sua casa.
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De dentro de casa, dona Elvira que acompanhara todas as estratégias para a manobra, ouviu quando a boca do poço foi tapada. Logo, em poucos segundos haveria a explosão.Â
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Foi então que arriscou uma olhada para fora de sua janela, e não vendo o marido que se abrigara embaixo da casa, perguntou. "Cadê o Teodoro ?" No que o Roque respondeu "Tá lá em baixo !" (quis dizer, embaixo da casa) BUUUMMMM!!!.
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Tábuas e pedaços de pedras pra todo o lado e, em meio ao eco do estrondo, ouviam-se os gritos de dona Elvira, de "Ai meu marido! Ai meu marido! Socorro! Ajudem, ai! Tá morto, tá morto!" um verdadeiro e natural escândalo.
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Todos que ali estavam ouvindo os gritos e o desespero da mulher, ficaram muito assustados.  Pensaram mil outras coisas, sem contudo entenderem a gritaria.
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Foi quando seu Teodoro saindo de baixo da casa, abraçou a esposa acalmando-a do susto que passara.Â
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Depois de explicado o mal entendido no jogo de palavras com a pergunta e a resposta, tudo acabou em brincadeiras, e motivos para divertimentos.Â
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Ah sim! E o poço ? Pois é...
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Para a aflição de nosso pai, foram necessárias mais umas três ou quatro dinamitações até que a água vertesse. Com 8 metros de profundidade, o buraco virou um poço de água limpa e cristalina e em abundância. E melhor, armazenada na rocha. Um orgulho para dona Mathilde.
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E querem saber? O poço ainda existe. Dizem que jamais secou. Seus atuais proprietários servem-se dele com o mesmo orgulho que nossa mãe nos servia de sua a água.Â
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É! São inúmeras as aventuras de nossa querida mamãe, a dona Mathilde.
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Irmão Ênio, um grande abraço e  beijos para as meninas. Gabi, o "papi" te ama!
* - forquilha "de pessegueiro": no caso, um galho da árvore do pessegueiro, em forma de vara bifurcada, (duas pontas) que usavam os poceiros para detectarem a presença de água no solo.

CARLOS ALBERTO PADILHA, 11/SET/2002
(A propósito, hoje não é um bom dia para se recordar estórias explosivas)
Leia também: COPAS DO MUNDO
Primeiro artigo da série, com as memórias das copas do mundo, até 2002
O VELHO REX
(...) todo cachorro quando está comendo ainda que seja velho e louco, não admite interferência. O cão me advertiu rosnando seriamente...
NOSSA PRIMEIRA COMUNHÃO
(...) compromisso é compromisso e o ensaio geral era muito importante. De modo que não havia jeito,  teria que ir assim mesmo. Até a Igreja foi tudo bem, afinal "moleques" na rua andam de qualquer maneira. Mas na Igreja não!
O CASO DO BALANCINHO
(...) De súbito minha mãe me pediu silêncio e, num gesto como de espreita dona Mathilde ergueu a cabeça concentrando-se para ouvir melhor algo que por certo lhe parecia estranho. E era!
O CAFEZINHO DO PAI
(...) Não havendo como conservar o café quente, o jeito era esquentar (requentar) cada vez que o quisesse. Assim, levava-se o bule com café ao fogo, esquentando-o com cuidado para que não fervesse
O CAFEZINHO DO PAI (2)
(...) Todos sabemos que não se deve usar os próprios dedos como termômetro (muito menos para saber se um café está quente ou não). Mas será que o nosso irmão Edson sabia?
O DIDI PESCADOR - DOMINGO É DIA DE PIQUENIQUE
(...) Sem muita demora, vi quando o Didi alçou o anzol da água, e preso nele um peixe desdobrava-se fisgado ao engodo. E logo em seguida, mais uns três ou quatro. Quanto a mim, continuava sapateiro
A VELHA CASA DA VOLTA DO UBA
(...) Era mal assombrada e pronto. A casa estava abandonada havia vários anos. Contavam os mais antigos, que sua última moradora, uma senhora de idade, falecera ali desprezada pelos filhos e parentes. E iam mais longe: falavam que a velha antes de morrer...
O CAMINHÃO DAS BALAS BELA VISTA
(O tal caminhão das Balas Bela Vista era, sim, um desafio pra quase todos os meninos corajosos. Eu não tava nesse time. Eu sempre fui muito cuidadoso com essas coisas de arriscar danos fÃsicos. Não era do tipo que mergulhava de cabeça nos riachos nem andava de bicicleta a toda velocidade. Preferia a calma e a segurança.
Mas o meu irmão... esse era doido de pedra. Não podia ver um perigo que já queria correr...Deu sorte de não apanhar nesse dia.)
O POÇO
(Um dia, nossa mãe já cansada de subir as barrancas do Itajaà Açu carregando latas d'água, resolveu fazer um poço.
Associando-se aos nossos vizinhos alemães, saÃram em busca de contratar um poceiro. Â
O poceiro mais famoso do lugar, era um senhor conhecido como Pedro Mudo. Pedro Mudo, obviamente porque não falava, era mudo mesmo.)
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